Mostrando postagens com marcador misticismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador misticismo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de março de 2017

Zé Ramalho repassa os 40 anos de carreira em voz e violão

Em entrevista ao Jornal do Commercio, ele fala da carreira, dos 40 anos de estrada e, claro, de violões.

 Entrevista concedida em Julho de 2016

Zé Ramalho completa 40 anos de carreira e começa a marcar a data com uma caixa, sob o selo Discobertas, com três CDs e um DVD: Voz e Violão – 40 Anos de Música. Em agosto, ele carimba a data redonda com um concerto em João Pessoa, com a Orquestra Sinfônica da Paraíba, e monta uma turnê nacional que deve começar no Theatro Municipal do Rio. O projeto Voz e Violão, com produção de Robertinho do Recife, tem apenas Zé Ramalho e alguns dos seus instrumentos preferidos. Um dos discos é um projeto antigo, de vinte anos atrás, que foi agora resgatado.
JORNAL DO COMMERCIO – Zé,por que começar o projeto de 40 anos de carreira com este trabalho voz e violão?
ZÉ RAMALHO – Foi durante uma conversa com Marcelo Fróes, presidente da Discobertas, que surgiu essa ideia. Eu já tinha gravado todas essas músicas recentemente, no estúdio de Robertinho de Recife. Era o início de um projeto, que estava sendo abordado pela Sony Music. Depois, esse projeto foi abortado, em função das exigências que eu estava fazendo diante da gravadora.
 JC – Pelo que você fala de violões nos encartes, é também uma celebração ao instrumento. Você conta que ganha muitos, além dos que compra. Quantos violões você estima que tem sua coleção?
ZÉ RAMALHO – Não dá para estimar, porque em 40 anos, foram muitos que eu adquiri e ganhei. Muitos eu presenteei para fãs-clubes, parentes, filhos e alguns músicos que já tocaram comigo. Na verdade, a marca canadense Godin é a que mais eu aprecio, e tenho comigo uma coleção razoável desses instrumentos. Então diríamos que eu tenho comigo uns 20 e poucos instrumentos entre violões e violas.
 JC – Uma época você foi conhecido pela viola, você atentou para o instrumento dos repentistas quando trabalhou para o documentário de Tânia Quaresma (Nordeste: Cordel Repente, Canção, 1974), ou já tocava antes?
ZÉ RAMALHO – Eu já tocava antes. Tinha descoberto esse universo da viola nordestina e larguei a guitarra para me dedicar a essa modalidade. Me exercitava muito em casa, praticava escalas, ponteios e riffs que eu ia criando, à medida que o tempo ia passando. Fiquei muito envolvido com esse processo e, quando cheguei no Rio de Janeiro, tinha fama de bom violeiro, vide a fase com Alceu Valença (1975), show do qual eu participei tocando várias violas e fui pressentido pelas plateias. Fiz também vários trabalhos em estúdio, para outros artistas (discos com Walter Franco, Cátia de França, Eustáquio Sena) nos quais está registrado um farto trabalho dessas minhas violas.
 JC – Nos seus primeiros discos a influência da cantoria de viola é forte, você usava martelo agalopado e outras métricas do repente. Em que ponto elas se misturaram com o rock que você começou a tocar com os Quatro Loucos, os Gentlemen, em João Pessoa?
ZÉ RAMALHO – Na verdade, o rock foi a forma musical que me atraiu para o mundo da música, lá pelos anos 60, fase da Jovem Guarda, que é 1965-1966 e o Nordeste, junto com essa cultura excepcional, dessas métricas, veio depois. Com essa descoberta, das métricas, me senti seguro e senhor da minha obra, para escrever minhas letras, fincadas nessas modalidades de cantoria.
 JC – A cantoria de viola aparece explícita no título de Décimas de um Cantador, que é nome de disco e de música, parceria com Flaviola, gravada em 1987, mas que é um rock que lembra J.J Cale. Depois, em Eu Sou Todos Nós, ela volta em duas faixas. Em que a cantoria de viola ainda te influencia?
ZÉ RAMALHO – Em quase toda letra que eu faço a cantoria de viola está presente. Se não por completo, mas ela é quem inspira tudo. E as melodias também, já surgem impregnadas de Nordeste, que é a minha base. Porém, não sou um cultuador, nem purista. Se não eu viraria um museu. Meu trabalho é exatamente a mistura, a alquimia, a ousadia de saber como misturar essas influências, cada vez que eu vou compor ou gravar um novo disco.
 JC – Você já pensou num disco inteiro de grandes cantadores, os irmãos Batista, Pinto, João Paraibano, Ivanildo Vila Nova, enfim, de craques da poesia oral nordestina?
ZÉ RAMALHO – Eu já produzi, no início dos anos 80, alguns discos desses cantadores. Produzi Oliveira de Panelas, produzi Otacílio Batista e esses dois são também meus mestres, principalmente Otacílio, que era o maior de todos, para mim. Me ensinou com paciência e generosidade muitas coisas da filosofia desses bardos. Tive, nos anos 70, o privilégio, durante as filmagens do documentário Nordeste: Cordel, Repente e Canção, de estar na varanda da casa de Lourival Batista, o Louro do Pajeú, e ali fui testemunha de grandes contendas entre violeiros que estavam sendo gravadas pela cineasta Tânia Quaresma. São registros que foram fundamentais para mim, nessa descoberta do pop para o Nordeste.
 JC – Você comenta num dos encartes que tinha ideia de gravar um disco apenas com músicas instrumentais suas, este projeto ainda está nos seus planos?
ZÉ RAMALHO – Não de imediato. Porque, na verdade, minha ideia era, em cada disco meu, colocar uma faixa instrumental, com meus exercícios de viola e um dia poder reunir essas faixas e virar um disco. Até no disco Nação Nordestina (2000), tem a faixa mais energética e representativa desse universo violeiro, que é a faixa Violando com Hermeto, na qual, mais uma vez, o destino me privilegiou, com a participação desse grande mestre. Tá lá, é só conferir!
 JC – Você gravou o Voz e Violão em 1996. Na época, o formato unplugged MTV tava forte ainda. Você chegou a ser convidado a fazer o programa? Neste disco ao vivo, você toca que violões, tem a viola também aí?
ZÉ RAMALHO – Esse disco de 1996 está representando a fase livre, desse tempo que são 20 anos atrás. A referência é a evolução voz e violão para a maturidade atual, dessas novas gravações, também de voz e violão, que foram gravadas no estúdio do Robertinho e estão sendo comercializadas para o meu público. A ideia é observar a maturidade que essas músicas atravessaram durante esses 40 anos. Tem que ver a obra como um todo, porque são essas músicas que foram gravadas, regravadas e viraram cult. Até mesmo nas manifestações da época do impeachment, foram cantadas em algumas dessas manifestações.
 JC – Como ressaltou Marcelo Fróes, no encarte, neste CD de 1996 você aponta para um projeto futuro seu, o de cantar músicas de outros cantores, Jackson, Raul, Dylan. Embora você faça isso desde antes, em Décimas de um Cantador, por exemplo, gravou versão de This Boy, dos Beatles, e faz um trecho curtíssimo de Number 9, que deve ter a ver com Revolution #9, do Álbum Branco dos Beatles. Qual o critério do repertório, revisitar os hits em roupagem acústica? Tanto nos dois que foram lançados agora, quanto no de 96, a ênfase é no hit?
ZÉ RAMALHO – A ideia foi colocar as músicas de sucesso como veículos de comunicação minha com o público. Porque essas músicas que eu escolhi não são músicas datadas, ou músicas que serviram para uma época. Elas são compatíveis com qualquer época. Elas permanecem encantando as plateias em minhas apresentações. Todo artista vive da sua arte e daquilo que captou e encantou o público. Não tenho tédio nenhum em cantar essas músicas há 40 anos, nem terei, porque nunca canto nenhuma delas igual ao que cantei da vez anterior. Sempre busco, em cada show, sentir o que estou dizendo, para poder passar para a plateia, a emoção necessária e verdadeira do meu trabalho.
CAIXA
Com produção dele e de Robertinho do Recife, Zé Ramalho encaixou os discos Zé Ramalho Voz e Violão 1996, os dois volumes Voz e Violão 40 anos de Música (com 22 faixas) e o DVD homônimo, espécie de making of didático, no qual a câmera enfatiza as mudanças de acordes enquanto ele canta a canção. “Para a pessoa que está querendo aprender os acordes, está tudo ali. A câmera está ali mostrando tudinho, do jeito que o autor fez. Foi feito de propósito, ali o cara vai olhar cada nota”, confirma Zé Zé Ramalho. 
Os dois volumes gravados especialmente para esta caixa, contêm o repertório que Zé Ramalho geralmente leva ao palco, com algumas canções que ele não costuma cantar sempre, com é o caso de Força Verde e Pepitas de Fogo. As demais canções, como ele aponta na entrevista, são composições conhecidas, as que o público pede, se não forem tocadas em shows. O álbum de 1996 é uma raridade a que poucos tiveram acesso. Foi gravado quando o cantor, depois de problemas pessoais, retomava a carreira e voltava por cima com o projeto O Grande Encontro, com Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo.
Ele completava então 20 anos de carreira, e queria celebrar com um disco voz e violão, o que acontece só agora. O disco foi gravado no estúdio de Robertinho do Recife, em equipamento analógico, mas acabou sendo arquivado. É um trabalho que capta Zé Ramalho no pique da volta ao sucesso, à estrada, e já aponta para um caminho que ele seguiria: o do intérprete de outras obras. As doze faixas do CD reúnem, até a oitava canções, as autorais: Avohai, Jardim das Acácias e Frevo Mulher. Em seguida, ele canta Luiz Gonzaga, Raul Seixas e Bob Dylan, de quem Zé Ramalho gravaria discos inteiros.
continue lendo ››

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

ESPECIAL: Como já dizia Raul PARTE 1


RAUL SEIXAS: O INICIO -  O FIM  - E  O MEIO

Depois das tristes notícias que testemunhamos no Brasil e no mundo nos últimos dias em relação a atentados terroristas(França) E da tragédia do rompimento da  barragem em MG, ficamos com sentimentos variados de revolta, luto, sensibilidade e perplexidade e eu como sempre  faço quando fico com a cabeça muito cheia resolvi ouvir uma boa música e simplesmente meditar sobre a vida e curiosamente isso me levou a um tal Raul Seixas. 
Escutando suas canções eu encontrei a paz que necessitava para entender o que deveriamos  estar buscando espiritualmente nesse momento. Deixe-me compartilhar com você a minha viagem para dentro do universo fascinante, um tanto místico e completamente atual em relação a vida, que foi a mente de Rauzito, o maluco beleza.

Raul sempre levou o estigma de ser o maluco, porém vinha sempre do elogio "Beleza".  Na verdade ele era um homem a frente de seu tempo, muitas vezes dizia algo profundo de um jeito um tanto atabalhoado e cômico, mas que dizia muito como tantas vezes ouvimos em suas letras onde fala sem medo de Deus e o Diabo. Raul encontrou o sentido da vida e soube viver como poucos. Você pode pensar que ele morreu pelo jeito como lidou com a vida, mas é exatamente esse jeito de viver que poucas pessoas conseguem encontrar. Não estou dizendo para viver e fazer o que o Raul, eu me refiro refiro a encontrar o que te faz feliz e se doar para sua felicidade e não para o dizem e tentam te impor como um caminho para um fim, a felicidade é o caminho e é para lá que eu vou tropeçando, mas com muito empenho assim como Raul o fez.
O Raul era tido como louco, e na sua loucura lúcida, vivia plenamente. Realizava seus sonhos e almejava fazer as pessoas saírem da mediocridade e do seu marasmo. Ele tem uma música que seu “início, fim e meio” é um convite a sair da caverna de Platão e ansiar por um novo mundo cheio de luzes e possibilidades. Estou falando da música “Meu amigo Pedro”, cuja letra completa está abaixo: 
 


Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não
Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim

Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria, e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura

Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
Quando os dois pensavam sobre o mundo
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos tantas portas
Mas somente um tem coração

E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

É que tudo acaba onde começou
Meu amigo Pedro

*****
Pedro, nesta música, supostamente ou quem sabe realmente, tenha sido um amigo seu que era advogado. Uns dizem que ele fez referência ao seu irmão Plínio Seixas nessa música, mas digo com sinceridade, tenho muita desconfiança quanto a isso. Acredito que ele estava querendo criticar o sistema de mercado escravizante que a maior parte das pessoas se submete.
Ele fala de seu amigo que trabalhava todos os dias, seguindo aquele velho ritual das 8 horas diárias, sempre trabalhando com seu terno. Por isso que ele diz:
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno
Nessa música, o Raul questiona seu amigo Pedro com relação ao seu trabalho.
Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não
Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim
O trabalho de advocacia não dá espaço para ser sentimental, entende? Um advogado chorão fica desempregado rapidinho, não tenho dúvidas disso. Tem que ser “durão”. Por isso o Pedro só chorava no banheiro.
Pedro vai para o trabalho todo dia, cumpre sua rotina de rapaz trabalhador, sem se questionar se isso seria o melhor para ele. Não estou querendo dizer que seja ruim trabalhar de advogado, me entenda bem, estou apenas interpretando a visão do Raul, OK?
O Raul queria mesmo era a liberdade de fazer o que quisesse, no tempo que quisesse, dormir em qualquer hora, acordar em qualquer hora, viajar quando quisesse, para qualquer lugar que bem entendesse.
Você acha isso loucura? Eu chamo isso de LIBERDADE, o cerne da “Sociedade alternativa”. Como diria ele e o senhor Aleister Crowley: “Todo homem tem o direito de mover-se pela face do planeta livremente sem passaportes”. Eu acho essa ideia encantadora e sonho em um dia existir essa sociedade que não tenha fronteiras e divisões, mas sei que isso está muito longe de acontecer. Não estarei mais nesta Terra quando esse dia chegar.
Por causa desse imenso desejo do Raul por liberdade que ele fala a frase mais cômica desta música.
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo
Para o Raul, ser advogado é “caretice”. E para o Pedro, ser músico é “vagabundagem”. Quem está certo? Quem está errado? Ninguém ora bolas! Era apenas a visão individual deles.
Ele queria mostrar ao Pedro o universo de possibilidades que ele tinha e não conseguia enxergar. Nisso eu concordo plenamente com o Raul. Estamos vivendo em um mundo que prega o tempo todo a necessidade de ter “estabilidade”, um emprego “seguro”. Por que? O que nos amarra nessa condição é o medo.
Por muito tempo eu também pensei nessa “estabilidade”, mas aprendi que quanto mais seguros estamos em um emprego, menor é a nossa liberdade, temos que cumprir uma série de obrigações. Que para muitos é tranquila, podem ser executadas tranquilamente, mas não é assim pra todo mundo. Para quem quer ser um “maluco beleza” essa ideia não encaixa, entende?
Por isso que sempre me questiono sobre isso e não fico apontando o dedo na cara de ninguém dizendo: “Isso está certo. Isso está errado. Siga por aqui. Siga por lá…”. Por que? Quem sou eu pra dizer o que é certo ou errado? Na realidade nem sabemos o que isso significa! O certo de um é o errado do outro e vice-versa. Então? O que fazer? Simples! Fique calado meu amigo! Vá cuidar da sua vida e deixe as outras pessoas absolutamente livres… Simples assim!
Olha só! Você está começando a entender a sociedade alternativa. Ela segue essa linha. Será que ela é diabólica, como alguns pensam? Eu acredito sinceramente que não. Ela existe para as pessoas que sonham com liberdade acima de tudo. Mas vivemos num lugar onde as pessoas preferem a segurança. Escolhas…
O refrão é uma das mensagens mais incríveis desta música e poucos são os que a comprendem. O Raul estava falando sabe de quê? Da MORTE. Vixe! Vou explicar.
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou
Ou seja, o Pedro conquistou o sucesso e realização profissional pelo caminho da advocacia e o Raul pelo da música. Ambos conseguiram, por caminhos totalmente diferentes.
Tudo acaba onde começou quer dizer isso, todos vamos morrer, é um fato. Todos vamos voltar a condição de seres espirituais que um dia vieram para o planeta Terra.
No fim das contas, o que menos importa é o caminho que nós seguimos, o que importa é ter vivido uma vida que tenha feito sentido. O Raul conseguiu isso, mas o Pedro eu tenho as minhas dúvidas…
Pense sobre isso e viva sua vida intensamente. Essa música é um verdadeiro tratado pela liberdade e felicidade. Viva Raul…

 AGORA UM OLHA MAIS PROFUNDO NA OBRA DO MESTRE...

FIM DA PARTE 1 - para ir direto para parte 2 clique aqui
continue lendo ››