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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Milton Nascimento: ‘um contador de contos me contou’ - Inspiração pura


fonte: https://tribunademinas.com.br


Milton Nascimento nos recebe em sua casa, onde vive uma vida pacata ao lado de Augusto, seu filho adotivo, e seus cães, entre eles, Bita e Bituquinha.



11/03/2018 às 07h00 - Atualizada 12/03/2018 às 07h42


Por Carime Elmor







Milton Nascimento é um contador de histórias extraordinárias. Enquanto folheio um livro de Eduardo Galeano, marco a página 48, acabava de escolher um dos títulos do poeta uruguaio para dar nome a este texto, com o cuidado de como se chama um filho. Estar olhos nos olhos com Bituca é sobre-humano. “O caçador de histórias” sempre fora caçador dele mesmo, preso a canções, vai sendo construído pelos retratos espalhados por sua casa, que relatam momentos, não tão bem quanto os que ele mesmo conta, em voz, presença e alma, entre as pausas e silêncios de uma tarde ensolarada.


Quando pergunto a ele o que é o sobrenatural? Ele me diz sobre as experiências religiosas no candomblé e espiritismo, esqueceu-se do nome de seu orixá, mas não importa, ele está logo ali ao lado. Ou ainda, muito antes de ter sido apresentado a religiões africanas ou a músicas e rezas de comunidades indígenas, todas as boas energias e crenças universais sempre estiveram pouco a pouco unidas elevando Bituca ao exemplo máximo de música universal. O rapaz do Rio, ainda muito menino, após perder sua mãe biológica, Maria do Carmo, na mesma década em que nasceu, 1940, veio morar em Juiz de Fora, mas sonhava mesmo era com um carro verde chegando para lhe buscar na Rua Padre Café. Aqui, sentia falta da casa em frente ao Tijuca Tênis Clube, dos amigos e de seus padrinhos Edgar e Augusta, com quem morava.


Sempre fora muito apegado às relações afetivas, tanto que é por essa temática, presente em “Jules et Jim” (François Truffaut, 1962), que Milton começou a compor. Quando foi morar em Belo Horizonte, no histórico Edifício Levy, conheceu a família Borges e praticamente tornou-se o 12° filho do casal Maria e Salomão. Tocava o violão, quando deixou perplexo um menino de 10 anos de idade, Lô, que descia os degraus de seus dezessete andares correndo e escorregando pelos corrimões. Márcio tornou-se parceiro de Milton das noitadas no Maletta, passeios pela Rua Rio de Janeiro, e foi quem o apresentou a muitos de seus parceiros musicais. Ir ao cinema era o passatempo preferido dos dois, mal sabia Milton que a película serviria de motivação para que começasse a compor, assim, de relance, após passarem um dia inteiro acompanhando sessões da estreia de Truffaut. “Cineasta da canção”, assim foi chamado Milton pelo jornalista Júlio Maria.


Digo que a vida de Milton sempre foi abençoada pelos deuses e astros, porque os encontros e a partilha musical foram o encaminhamento de sua vida. Anos mais tarde, já em Nova York, não conseguiu conceber o surpreendente encontro com a atriz Jeanne Moreau. Ele, calado, gotejava pelas mãos e consumia uma overdose de chás (na tentativa de se acalmar), mal sabendo que a diva do cinema francês – também cantora – minutos depois estaria chorando e dizendo que agora seria a vez de Milton Nascimento conquistar o mundo. O prenúncio do que já estava acontecendo. “Ela colocou a mão na minha, e falou: ‘Que coisa maravilhosa é a arte. De repente eu estava em um lugar, na França, e nunca pensei que fosse te conhecer, e quando eu chego aqui, eu faço parte da sua vida. Ela colocou a mão em mim, chorando, e falou: agora é a tua vez!”





Em dado momento de nossa entrevista, sentados no sofá de sua casa em Juiz de Fora, Milton busca um de seus discos de vinil: “Native dancer“, do saxofonista norte-americano Wayne Shorter em parceria com Milton Nascimento, gravado em 1974, nos Estados Unidos, junto ao pianista Herbie Hancock e músicos brasileiros, como Robertinho Silva, na bateria, e Wagner Tiso, arranjador de Bituca, no órgão e piano. Das nove faixas, cinco são assinadas por Milton, algumas em parceria com Fernando Brant e Márcio Borges: “Ponta de areia”, “Lília”, “Milagre dos peixes”, “Tarde” e “From the lonely afternoons”. Wayne era músico do quinteto de Miles Davis, assim como o guitarrista Pat Metheny, que se tornou amigo de Milton. Em momento subsequente, ele levanta do sofá e me convida a conhecer uma outra parte da casa, pelo caminho vejo que o primeiro disco de estúdio dos Beatles, “Please please me” (1963), era a capa da pilha na sala de estar. Em um quarto de TV e música, estão seus LPs, a prateleira de CDs que só aumenta à medida que recebe presentes, e a parede que queria me mostrar, de fotos dele junto a outros mestres da música, como Caetano Veloso e Pat.


Os músicos de Miles Davis gostavam muito de Milton, por isso ele sempre recebia convites para tocarem ou gravarem juntos. Herbie Hancock, entre outros trabalhos, participa de “Courage” (1968), “Milton” (1976) e “Angelus” (1994). Bituca conta que quando esteve em Los Angeles para abrir o show de Miles Davis, ele parecia estar profundamente enciumado com o prestígio do brasileiro entre seus parceiros. Na noite do concerto, o público ovacionou Milton Nascimento pedindo o alongamento do show, até que o som da banda foi cortado, ficou tudo mudo, impossibilitando de encerrarem o show como as pessoas clamavam. Foi quando Miles subiu ao palco, para o show principal, e o mesmo público começou a vaiar, uma indignação pela maneira descortês como acabaram com o show do Milton Nascimento, que, na verdade, se sentia mal pensando que Miles Davis era um fenômeno do jazz e também não mereceu as vaias. “A vaia parecia que estava por cima da cidade toda! E não parava mais.”


Após insistência de amigos para que fosse se apresentar ao Miles em seu camarim – depois de saber que, apesar do estranhamento, o músico norte-americano havia proferido há pouco tempo para a mídia uma frase sobre ele: “A música no mundo está muito esquisita, mas tem um crioulinho, que toca violão, que é muito bom” -, Bituca tentou estabelecer alguma conversa, mas foi “chutado” para fora. “Quem deixou esse cara entrar aqui!?”. Bituca conta, hoje, com serenidade e graça este episódio. “Bom, as pessoas diziam que ele fazia isso justamente porque admirava minha música, mas eu acho que não”, diz ele ao lado de seu Di Giorgio Tárrega.
A ligação do filho de Elis Regina

Bituca tocou “Francisco” no piano de sua casa durante a entrevista (Foto: Fernando Priamo)




Embora não esteja compondo com frequência, o violão fica sempre por perto. Já o piano de cauda, por vezes, abre e toca “Francisco”, e foi o que fez naquela tarde. Acima do piano, uma foto de Lília, sua mãe, a mulher que chegou junto ao marido Josino, no carro verde, que ele fortemente desejava, para lhe salvar. Foi adotado por ela, que era filha de sua madrinha, casa onde sua mãe biológica trabalhara. Chama a atenção também em sua casa de Juiz de Fora um quadro de Elis Regina, um santuário de adoração às mulheres de sua vida, à sua maneira.


Falar de Elis com Milton faz com que seus olhos virem mar. Pergunto se ele tem o costume de colocá-la para cantar em sua casa, mas seu filho, Augusto Kesrouani, responde: “Você escuta, mas sempre pede para tirar”. “É que é muito forte para mim ouvi-la”, diz Milton fazendo um gesto com a mão no peito. “Vamos contar sobre o telefonema do filho de Elis para a gente, Augusto?” Nos últimos dias, João Marcelo Bôscoli havia ligado e pedido para falar com Milton Nascimento, que ao atender só ouvia choro. “Ele dizia: ‘Eu adoro você’. Aí eu falei: ‘Eu adoro você também, mas eu quero que você saiba que ali ao lado do piano em nossa casa, está um retrato da tua mãe. Ele pegou e falou: ‘É, agora o que você não sabe é que na cabeceira da minha casa, tem um retrato teu e dela juntos’. São esses momentos que chegam e quase matam a gente.”


Lágrimas de emoção de um encontro que fez de Milton um compositor mais corajoso. Mas, principalmente, apaixonado pela voz feminina.


Ela estava ao lado do piano

Quase a cantar para Bituca

Ele toca, ela canta

“A voz feminina é amor, a masculina é poder”, ele diz

Os dois cantos

Tão sublime quanto o valor de um filho

Aos prantos ao telefone

Este é o lastro das canções

Que servem como travessia

A Atriz de Truffaut já fez o anúncio

“Agora será a sua vez!”

“E a gente sonhando…”

“É que a gente vai ser feliz!”

O retrato à cabeceira da cama

Deixa um “gosto de sol”

Na boca de quem cantava

“Qualquer coisa a haver com o paraíso”
“Ray Charles me salvou”


Sua sanfoninha Hering, ele aponta para o segundo piso de casa, onde permanece guardada, foi sua primeira ferramenta musical. O presente de Lília foi um marco para descobrir a voz como o seu principal instrumento. A potência do agudo do vocal de infância era seu grande triunfo. Talvez pouco depois dos 13, quando começou a tocar violão, foi percebendo que ela engrossava aos poucos. Ficou desesperado.


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(Foto: Fernando Priamo)



“Eu saía pela casa correndo, gritando: ‘Eu não quero ter voz de homem porque eu não gosto de homem cantando! Não quero, não quero!’ Meus pais falavam: ‘Deixa, isso passa’. E eu fiquei mal mesmo, ia para o quintal chorando o tempo todo. Um dia, fui para a janela do escritório do meu pai, e estava triste, debruçado. De repente, começaram a surgir uns violinos em um rádio. Era um coral, até que um homem começou a cantar. Eu fiquei doido, doido, doido! Eu nem sabia o nome dele. Quando acabei de ouvir esse cara, saí pela nossa casa: ‘Homem também pode cantaaaaaaaaaar! Que delícia!’. E para os mesmos lugares que eu ia antes chorar, eu fui comemorar. Isso me curou e deu um pouco de sossego para os meus pais. Era Ray Charles, ‘Stella by starlight’. Comecei a ouvir homens cantando, principalmente americanos, mas foi o Ray Charles quem me salvou.”


Com Lília, gostava de ouvir Villa Lobos, porém escondido do pai. Não à toa sua música popular sempre esteve junto aos grandes instrumentistas, grupos de jazz e até com orquestra sinfônica. Arranjos para instrumentos de sopro, órgãos, contrabaixos acústicos e sua voz sempre a sobrevoar no interior dos timbres e harmonias. Em um fluxo diferente da bossa nova, Milton cantava um movimento de música mineira, regional e despretensioso entre amigos. “Lília estudava piano com o Villa-Lobos, e meu pai tinha ódio dele, porque o Heitor Villa-Lobos era conhecido como o homem das mulheres. Lá em casa, a gente ouvia muita música clássica, música de cinema, americana, jazz, mas Villa-Lobos não podia tocar”, relembrou-se e começou a rir.
TXAI: O que o Rio lhe contou


“Mais que amigo, mais que irmão, a metade de mim que existe em você é a metade de você que habita em mim”, este é o significado de “Txai“, nome de seu álbum de 1990. Uma viagem de barco pelo Rio Juruá e Amônia, no estado do Acre. No encanto do coro extraterrestre dos meninos da população ribeirinha, e no mergulho antropofágico pela música dos Axanincas. Só sua presença afastou as ameaças da tribo que o acolhia. “Quando a gente foi chegando, o pessoal que estava lá para maltratar os índios saiu correndo, depois me disseram que eles ficaram sabendo que eu estava por ali. Não sei como. E sumiram.”


Nesta ocasião, foi quando apadrinhou Benke, e conta a cena como se relatasse a sequência de um filme. “Quando a gente estava chegando quase no alto do rio, eu dei uma olhada, veio um garoto índio, bem pequenininho, pulou lá de cima e atravessou o Rio Juruá nadando.” Na noite anterior, estava observando o céu, quando foi abduzido por um coro de crianças. “Comecei a ouvir uma voz tipo de E.T., não era, mas parecia que eles estavam falando com o E.T., era uma porção de criancinhas. Uma hora cheguei para os menininhos e perguntei para quem eles cantavam aquilo. Aí vi a Lua, mostrei a eles, que ficaram olhando espantados, até um deles me perguntar: ‘Você não canta nada para outras estrelas?’ Eu falei: ‘Ué, para qual?’ Aí um menininho apontou e disse: ‘Para aquela ali’. E era uma estrela incrível, nossa, eu fiquei doido! Foi lindo, porque eles continuaram fazendo o canto e olhando para o alto.”


Seu batismo pelos Guarani Kaiowá, 20 anos após a ida ao Acre na tribo dos Axanincas, aconteceu quando fez um show em uma praça de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. “Estava cantando, quando vi subindo os 37 Nhanderus, que são os índios rezadores. Eles nunca tinham ouvido falar em mim, mas se trancaram em meu camarim e ficaram com uma foto minha, pequena. Quando chegou o bis, eles foram até o palco, e o principal deles falou: ‘A partir de hoje, seu nome é Ava Nhey Pyru Yvy Renhoi‘, lê Milton em seu exemplar do livro “Milton Nascimento – Letras, histórias e canções”, lançado em 2017, que significa: “Semente da terra”, nome da recente turnê que fez Milton voltar aos palcos.
“É o cinema da minha vida”

Bituca e Augusto, seu filho, na casa onde moram em Juiz de Fora. (Foto: Fernando Priamo)




A gratidão que Milton Nascimento tem por Lília e Josino, seus pais, faz com que ele encare ser filho e ter um filho com muita preciosidade. Ao começarmos a conversar sobre o assunto, ele chama Augusto, que senta a seu lado, para poderem contar essa história juntos. “É um sonho que finalmente agora eu realizei”, diz Milton Nascimento olhando da forma mais pura para seu filho, hoje com 24 anos. Por conta de amigos em comum, os dois se viram pela primeira vez quando Augusto estava no início da adolescência. Tempos depois, Milton perguntou ao menino, que não tem contato com o pai biológico, se poderia ser seu pai.


Augusto Kesrouani começou a estudar Direito, quando passou a morar metade do seu tempo em Juiz de Fora, para estudar, e no Rio, cuidando de Bituca. Nessa época, começava a cuidar dos direitos autorais de sua carreira. Milton sempre preferiu trabalhar dessa forma mais afetuosa, com uma equipe pequena. Em 2015, quando tinha praticamente parado de cantar e realizar shows, se viu em um estado de depressão. Foi quando Augusto sugeriu que procurassem uma casa em Juiz de Fora, para que levassem uma vida mais tranquila e também ficassem mais juntos.


“Antes de ele vir para cá, sua saúde não estava boa, estava com depressão, e tinha parado a carreira. Nesse tempo, eu estava terminando a faculdade aqui, e ia para lá três vezes na semana ajustar tudo. Até que no ano retrasado, quando eu ia fazer a prova da OAB, eu não estava conseguindo muito viajar, e a situação lá não estava boa. Como éramos só nós dois, a solução que eu tive foi trazê-lo para cá. Procurei uma casa, e ele quis vir conhecer. Eu o busquei no dia seguinte, e ele não voltou mais para o Rio. Quando estava fechando o primeiro ano dele em Minas, a gente começou a pensar em um show, como um teste para ver se queria voltar a cantar. Foi em Belo Horizonte, em março de 2017. Ele acabou a apresentação falando para eu marcar mais shows, ainda do palco”, relata Augusto. “Em 2013, ele começou a desacelerar. Em 2015, foram quatro shows no ano todo. Em 2017, foram 26 shows”, conta o filho sobre a retomada de Milton Nascimento. “Nos shows, eu não o reconheço no palco, é uma sensação diferente, como ver a outra dimensão de uma pessoa. Em Juiz de Fora, a gente leva uma vida muito comum, longe de confusão. Recebemos poucas visitas, é uma vida bem pacata.”
“Eu li nos jornais”


Recentemente, Bituca tem colocado Nina Simone para tocar. Ele gosta de música feita por quem se entrega ao sentimento, sem recuar. As verdades que o tiram o sono vêm ora da tristeza, ora da paixão, que para ele não há distinção. Nas vezes em que esteve amando, compôs sonhando e acordou com a música tocada em sua mente.

“Para mim, compor apaixonado ou triste é a mesma coisa. O sentimento é o mesmo. Qualquer maneira de compor, como diz uma certa letra, vale a pena”, diz ele, citando “Paula e Bebeto”, que diz: “Qualquer maneira de amor vale a pena”. A prova de que em seu inconsciente, amor e música são as mesmas palavras.


Atualmente, estava entristecido em relação ao que conhece da produção musical brasileira. “Eu estava achando esquisito o negócio da música no Brasil. Não sentia aquela verdade nas pessoas, na música, em tudo. Eu ouvia alguma música e não queria ir até o fim. Não me sentia feliz ouvindo a música do Brasil”, confessou Milton, dizendo que sua admiração por Tiago Iorc veio a partir daí, quando, a partir dele, voltou a excitação. Em março de 2017, quando Tiago veio realizar um show em Juiz de Fora, eles se encontraram, mais tarde, no mesmo ano, entre outubro e dezembro de 2017, o compositor brasiliense veio morar com Milton e Augusto, quando compuseram e gravaram “Mais bonito não há“, além de terem rasuras de outras canções já em andamento que pretendem finalizar. “Ele, para mim, é a melhor coisa que tem atualmente”, afirma Milton Nascimento, acrescentando que não se lembra da última vez que compôs sozinho, mas que já sente vontade de se encontrar com Tiago para seguirem o trabalho em parceria. “Fizemos várias músicas, só saiu aquela”.


Já próximo ao fim da conversa, eu desligava o gravador, quando Milton lembrou do dia em que conheceu Nina Simone. Após o show com Miles Davis, ele descia para o camarim ainda ouvindo as vaias. “Estava lá com a minha turma, e falaram que tinha alguém me procurando. Até que Nina Simone entrou dizendo: ‘Eu li nos jornais que você é uma pessoa que gosta muito de fazer amigos. E eu vim aqui para ser mais uma’. Ela ficou conversando com a gente um tempão. E na saída, quando cruzava a porta, ela virou e falou com toda empáfia: “Eu li isso nos jornais!”, e saiu. Se existe uma pessoa no mundo com quem ele ainda teria um profundo prazer em compartilhar música, é Nina.
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segunda-feira, 6 de março de 2017

Zé Ramalho repassa os 40 anos de carreira em voz e violão

Em entrevista ao Jornal do Commercio, ele fala da carreira, dos 40 anos de estrada e, claro, de violões.

 Entrevista concedida em Julho de 2016

Zé Ramalho completa 40 anos de carreira e começa a marcar a data com uma caixa, sob o selo Discobertas, com três CDs e um DVD: Voz e Violão – 40 Anos de Música. Em agosto, ele carimba a data redonda com um concerto em João Pessoa, com a Orquestra Sinfônica da Paraíba, e monta uma turnê nacional que deve começar no Theatro Municipal do Rio. O projeto Voz e Violão, com produção de Robertinho do Recife, tem apenas Zé Ramalho e alguns dos seus instrumentos preferidos. Um dos discos é um projeto antigo, de vinte anos atrás, que foi agora resgatado.
JORNAL DO COMMERCIO – Zé,por que começar o projeto de 40 anos de carreira com este trabalho voz e violão?
ZÉ RAMALHO – Foi durante uma conversa com Marcelo Fróes, presidente da Discobertas, que surgiu essa ideia. Eu já tinha gravado todas essas músicas recentemente, no estúdio de Robertinho de Recife. Era o início de um projeto, que estava sendo abordado pela Sony Music. Depois, esse projeto foi abortado, em função das exigências que eu estava fazendo diante da gravadora.
 JC – Pelo que você fala de violões nos encartes, é também uma celebração ao instrumento. Você conta que ganha muitos, além dos que compra. Quantos violões você estima que tem sua coleção?
ZÉ RAMALHO – Não dá para estimar, porque em 40 anos, foram muitos que eu adquiri e ganhei. Muitos eu presenteei para fãs-clubes, parentes, filhos e alguns músicos que já tocaram comigo. Na verdade, a marca canadense Godin é a que mais eu aprecio, e tenho comigo uma coleção razoável desses instrumentos. Então diríamos que eu tenho comigo uns 20 e poucos instrumentos entre violões e violas.
 JC – Uma época você foi conhecido pela viola, você atentou para o instrumento dos repentistas quando trabalhou para o documentário de Tânia Quaresma (Nordeste: Cordel Repente, Canção, 1974), ou já tocava antes?
ZÉ RAMALHO – Eu já tocava antes. Tinha descoberto esse universo da viola nordestina e larguei a guitarra para me dedicar a essa modalidade. Me exercitava muito em casa, praticava escalas, ponteios e riffs que eu ia criando, à medida que o tempo ia passando. Fiquei muito envolvido com esse processo e, quando cheguei no Rio de Janeiro, tinha fama de bom violeiro, vide a fase com Alceu Valença (1975), show do qual eu participei tocando várias violas e fui pressentido pelas plateias. Fiz também vários trabalhos em estúdio, para outros artistas (discos com Walter Franco, Cátia de França, Eustáquio Sena) nos quais está registrado um farto trabalho dessas minhas violas.
 JC – Nos seus primeiros discos a influência da cantoria de viola é forte, você usava martelo agalopado e outras métricas do repente. Em que ponto elas se misturaram com o rock que você começou a tocar com os Quatro Loucos, os Gentlemen, em João Pessoa?
ZÉ RAMALHO – Na verdade, o rock foi a forma musical que me atraiu para o mundo da música, lá pelos anos 60, fase da Jovem Guarda, que é 1965-1966 e o Nordeste, junto com essa cultura excepcional, dessas métricas, veio depois. Com essa descoberta, das métricas, me senti seguro e senhor da minha obra, para escrever minhas letras, fincadas nessas modalidades de cantoria.
 JC – A cantoria de viola aparece explícita no título de Décimas de um Cantador, que é nome de disco e de música, parceria com Flaviola, gravada em 1987, mas que é um rock que lembra J.J Cale. Depois, em Eu Sou Todos Nós, ela volta em duas faixas. Em que a cantoria de viola ainda te influencia?
ZÉ RAMALHO – Em quase toda letra que eu faço a cantoria de viola está presente. Se não por completo, mas ela é quem inspira tudo. E as melodias também, já surgem impregnadas de Nordeste, que é a minha base. Porém, não sou um cultuador, nem purista. Se não eu viraria um museu. Meu trabalho é exatamente a mistura, a alquimia, a ousadia de saber como misturar essas influências, cada vez que eu vou compor ou gravar um novo disco.
 JC – Você já pensou num disco inteiro de grandes cantadores, os irmãos Batista, Pinto, João Paraibano, Ivanildo Vila Nova, enfim, de craques da poesia oral nordestina?
ZÉ RAMALHO – Eu já produzi, no início dos anos 80, alguns discos desses cantadores. Produzi Oliveira de Panelas, produzi Otacílio Batista e esses dois são também meus mestres, principalmente Otacílio, que era o maior de todos, para mim. Me ensinou com paciência e generosidade muitas coisas da filosofia desses bardos. Tive, nos anos 70, o privilégio, durante as filmagens do documentário Nordeste: Cordel, Repente e Canção, de estar na varanda da casa de Lourival Batista, o Louro do Pajeú, e ali fui testemunha de grandes contendas entre violeiros que estavam sendo gravadas pela cineasta Tânia Quaresma. São registros que foram fundamentais para mim, nessa descoberta do pop para o Nordeste.
 JC – Você comenta num dos encartes que tinha ideia de gravar um disco apenas com músicas instrumentais suas, este projeto ainda está nos seus planos?
ZÉ RAMALHO – Não de imediato. Porque, na verdade, minha ideia era, em cada disco meu, colocar uma faixa instrumental, com meus exercícios de viola e um dia poder reunir essas faixas e virar um disco. Até no disco Nação Nordestina (2000), tem a faixa mais energética e representativa desse universo violeiro, que é a faixa Violando com Hermeto, na qual, mais uma vez, o destino me privilegiou, com a participação desse grande mestre. Tá lá, é só conferir!
 JC – Você gravou o Voz e Violão em 1996. Na época, o formato unplugged MTV tava forte ainda. Você chegou a ser convidado a fazer o programa? Neste disco ao vivo, você toca que violões, tem a viola também aí?
ZÉ RAMALHO – Esse disco de 1996 está representando a fase livre, desse tempo que são 20 anos atrás. A referência é a evolução voz e violão para a maturidade atual, dessas novas gravações, também de voz e violão, que foram gravadas no estúdio do Robertinho e estão sendo comercializadas para o meu público. A ideia é observar a maturidade que essas músicas atravessaram durante esses 40 anos. Tem que ver a obra como um todo, porque são essas músicas que foram gravadas, regravadas e viraram cult. Até mesmo nas manifestações da época do impeachment, foram cantadas em algumas dessas manifestações.
 JC – Como ressaltou Marcelo Fróes, no encarte, neste CD de 1996 você aponta para um projeto futuro seu, o de cantar músicas de outros cantores, Jackson, Raul, Dylan. Embora você faça isso desde antes, em Décimas de um Cantador, por exemplo, gravou versão de This Boy, dos Beatles, e faz um trecho curtíssimo de Number 9, que deve ter a ver com Revolution #9, do Álbum Branco dos Beatles. Qual o critério do repertório, revisitar os hits em roupagem acústica? Tanto nos dois que foram lançados agora, quanto no de 96, a ênfase é no hit?
ZÉ RAMALHO – A ideia foi colocar as músicas de sucesso como veículos de comunicação minha com o público. Porque essas músicas que eu escolhi não são músicas datadas, ou músicas que serviram para uma época. Elas são compatíveis com qualquer época. Elas permanecem encantando as plateias em minhas apresentações. Todo artista vive da sua arte e daquilo que captou e encantou o público. Não tenho tédio nenhum em cantar essas músicas há 40 anos, nem terei, porque nunca canto nenhuma delas igual ao que cantei da vez anterior. Sempre busco, em cada show, sentir o que estou dizendo, para poder passar para a plateia, a emoção necessária e verdadeira do meu trabalho.
CAIXA
Com produção dele e de Robertinho do Recife, Zé Ramalho encaixou os discos Zé Ramalho Voz e Violão 1996, os dois volumes Voz e Violão 40 anos de Música (com 22 faixas) e o DVD homônimo, espécie de making of didático, no qual a câmera enfatiza as mudanças de acordes enquanto ele canta a canção. “Para a pessoa que está querendo aprender os acordes, está tudo ali. A câmera está ali mostrando tudinho, do jeito que o autor fez. Foi feito de propósito, ali o cara vai olhar cada nota”, confirma Zé Zé Ramalho. 
Os dois volumes gravados especialmente para esta caixa, contêm o repertório que Zé Ramalho geralmente leva ao palco, com algumas canções que ele não costuma cantar sempre, com é o caso de Força Verde e Pepitas de Fogo. As demais canções, como ele aponta na entrevista, são composições conhecidas, as que o público pede, se não forem tocadas em shows. O álbum de 1996 é uma raridade a que poucos tiveram acesso. Foi gravado quando o cantor, depois de problemas pessoais, retomava a carreira e voltava por cima com o projeto O Grande Encontro, com Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo.
Ele completava então 20 anos de carreira, e queria celebrar com um disco voz e violão, o que acontece só agora. O disco foi gravado no estúdio de Robertinho do Recife, em equipamento analógico, mas acabou sendo arquivado. É um trabalho que capta Zé Ramalho no pique da volta ao sucesso, à estrada, e já aponta para um caminho que ele seguiria: o do intérprete de outras obras. As doze faixas do CD reúnem, até a oitava canções, as autorais: Avohai, Jardim das Acácias e Frevo Mulher. Em seguida, ele canta Luiz Gonzaga, Raul Seixas e Bob Dylan, de quem Zé Ramalho gravaria discos inteiros.
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segunda-feira, 7 de março de 2016

Rita Lee...Rockeira, mutante,irreverente,venenosa,Miss...tudo numa só mulher ( Parte 1)

 Feliz dia internacional da Mulher 08/03/16



Rita Lee é o que se pode chamar de cometa harley da música, só passa de tempos em tempos. Uma figura de personalidade forte e de grande carisma, seu rock desde sempre mostrou-se afiado, tantos nas letras quanto em musicalidade. Junto de Arnaldo Baptista e do seu Sergio Baptista tiveram uma passagem marcante nos anos 60 com uma formação irreverente, os Mutantes, e ainda hoje são lembrados em muitos lugares do mundo pelas canções que fizeram.
Em 1966, estavam em estúdio fazendo os backings para Nana Caymmi em Bom dia, quando, no intervalo, conheceram o marido da cantora, que logo os desafiou a um duelo. No fim de uma tarde de improvisos e afinidades, receberam o convite para acompanhá-lo no festival que estava sendo preparado para o ano seguinte.

Gilberto Gil e Os Mutantes ganharam o segundo lugar com Domingo no parque no III Festival da Música Popular Brasileira na TV Record, o mesmo em que Caetano apresentou a sua Alegria alegria, ficando em quarto. O público não entendeu muito bem a mistura das guitarras elétricas dos Mutantes com o violão de Gil e orquestra regida por Rogério Duprat. Era a Tropicália mostrando seus primeiros passos e recebendo suas primeiras vaias. 

Ainda em 1967, participaram do disco-manifesto Tropicália ou panis et circensis ao lado de Gil, Caetano, Gal Costa, Tom Zé e Nara Leão, entre outros. Assinaram contrato com a Philips (atual PolyGram) e, já no ano seguinte, lançaram o primeiro disco do grupo.

Depois de viver em comunidades, experimentar todos os tipos de drogas, fugir da polícia e driblar a censura, Rita Lee começou a desenvolver uma carreira solo, lançando Build up em 1970, disco produzido por Arnaldo Baptista. Em 1972, ano do último disco dos Mutantes, Rita lançou outro álbum solo, também contando com a participação dos outros integrantes.
Pouco depois, foi expulsa do grupo por divergir dos novos rumos que os outros integrantes estariam tomando.



Em depressão pela saída dos Mutantes, Rita pensou em terminar a carreira. Trancou-se um tempo em casa, período em que compôs muitas das músicas do trabalho que lançaria a seguir. Formou o Tutti Frutti, para uma série de apresentações no Teatro Ruth Escobar. Por sugestão da gravadora, que queria lançar Rita como estrela nacional de seu cast, o grupo passou a se chamar Rita Lee & Tutti-Frutti.
Com essa banda, lançou alguns grandes sucessos, como Ovelha negra, Agora só falta você, Esse tal de Roque Enrow, Miss Brasil 2000 e Jardins da Babilônia


Em 1976, grávida pela primeira vez, foi presa por porte e uso de maconha. Ficou um ano em prisão domiciliar, precisando de permissões especias do juiz para sair de casa e fazer shows. Abalada e sem dinheiro, compôs com Paulo Coelho a polêmica Arrombou a festa. O compacto com essa faixa bateu recordes de venda do pop brasileiro com 200 mil cópias vendidas.

Já vivendo com Roberto de Carvalho definitivamente incorporado à banda, mãe de Roberto Lee de Carvalho e livre da prisão domiciliar, Rita sai em turnê com Gilberto Gil. Refestança foi registrado em disco, mas, segundo a própria cantora, resgatou apenas 30% da atmosfera do show.
Depois do LP Babilônia, em 1978, a banda se desfez. Seu nome foi registrado por um dos integrantes, que queria obrigar a saída de outro. Rita reformulou a banda e colocou na estrada o show Rita Lee & Cães e Gatos, nome dado devido às brigas internas durante os ensaios. Esse show deu origem a um dos primeiros álbuns piratas do Brasil, hoje, artigo de colecionador.


No ano seguinte, Rita já não mais fazia parte de uma banda. Ao lado de Roberto de Carvalho, lançou um álbum que pode ser considerado um divisor de águas em sua carreira. Nele, mostrava seu lado romântico e se permitia a misturas até então inimagináveis. O grande hit do ano de 1979 foi Mania de você e a dúvida seria se a febre Rita Lee resistiria a mais um verão.
A resposta veio com Lança perfume. Sucesso absoluto no Brasil, a música ficou por mais de um mês no primeiro lugar da Billboard americana e virou must nas boates da Europa. Até o Príncipe Charles passou por excêntrico ao dizer que sua cantora predileta seria Rita Lee.
As turnês tomaram contornos de mega-produção, com estrutura inédita para os palcos brasileiros da época. Os discos marcavam números de cópias até então nunca alcançados no mercado pop brasileiro.
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