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terça-feira, 26 de abril de 2016

Ciência do Esporte - Visão periférica


fonte:superinteressante
Nem só de pernas vivem os jogadores de futebol. A medicina mostra que treinar os olhos melhora a performance dos atletas, e que a visão de jogo não é um dom de nascença, privilégio de bem-dotados.

Paulo D´Amaro
No primeiro instante, ninguém entendeu aquela jogada. Pelé recebeu a bola na entrada da área italiana e, em vez de driblar o zagueiro e partir para o gol, tocou-a com pouca força para o lado direito, onde não havia nenhum jogador. Seria um erro primário cometido pelo rei do futebol? Nada disso. Foi, na verdade, uma jogada genial. Lá de trás, vinha o lateral Carlos Alberto Torres, veloz como um foguete. O passe de Pelé veio na medida exata. Resultado: mais uma bola no fundo das redes do goleiro italiano Albertosi. Era o quarto gol da Seleção brasileira, que selaria a conquista do tricampeonato mundial, no dia 21 de junho de 1970, no Estádio Azteca, no México.


Qual a explicação para o passe genial? Como Pelé conseguiu perceber, quase de costas, a aproximação de Carlos Alberto? A resposta não tem nada de sobrenatural. Pelé tinha aquilo que, no meio futebolístico, costuma-se chamar visão de jogo — a capacidade de perceber, num piscar de olhos, tudo o que se passa à sua volta. Essa velha conhecida dos amantes do chamado esporte bretão tem outro nome para os oftalmologistas: visão periférica. É ela que permite aos motoristas, por exemplo, olhar no espelho retrovisor sem perder a atenção no trânsito à frente. Ou, ainda, ao leitor perceber as bordas da revista enquanto lê o texto. Agora juntaram-se o oftalmologista Durval Morais de Carvalho e o técnico de futebol Paulo Gonçalves, professor da Universidade Federal de Goiás, para afirmar uma hipótese ousada: essa virtude pode ser desenvolvida e melhorada artificialmente.
A questão é polêmica. A “visão de jogo” sempre foi considerada um dom de nascença de uns poucos privilegiados. “Alguns têm, outros não”, diz taxativamente o ex-jogador e técnico da Seleção brasileira, Paulo Roberto Falcão, que atualmente dirige o Internacional de Porto Alegre. Outro craque do passado recente, Roberto Rivellino, concorda: “Visão de jogo é questão de talento e isso nasce com o jogador”, diz Rivellino, atualmente comentarista de TV e técnico do Clube Brasil de Masters. Já o ex-atacante do Corinthians e da Seleção, Sócrates de Souza Vieira de Oliveira, acredita que é possível melhorar a percepção com treinamentos específicos. “O pouco uso destas técnicas é resultado da falta de conhecimento”, adverte o ex-jogador, que ficou famoso por seus desconcertantes passes de calcanhar, e hoje trabalha como médico em Ribeirão Preto, SP.
A controvérsia é fácil de resolver, para o médico Durval Morais de Carvalho: “Os craques realmente conseguem aproveitar a visão periférica naturalmente. Mas há como induzi-la também nos jogadores menos dotados”. Praticante do futebol, ele se interessou pelo assunto por acaso. “Eu sempre ficava intrigado com lances em que um jogador, às vezes de costas, percebia um colega e fazia o passe”, conta. “Até que um dia me flagrei fazendo coisas assim num jogo de amadores.” Como especialista em assuntos de visão, Carvalho descobriu que sua “jogada de Pelé” não tinha sido casual. Na época, ele se dedicava a exaustivos exercícios de leitura dinâmica. “Tinha que haver uma relação entre as duas coisas.”
E aparentemente havia. “Os exercícios me condicionavam a prestar mais atenção na periferia da visão. Ao andar pela rua, ficava incomodado com as placas e outdoors, que antes eu nem percebia.” Se a visão lateral se mostrava mais apurada num simples passeio, no campo de futebol não poderia ser diferente. Não era mais necessário olhar fixamente para a bola e, assim, Carvalho podia procurar companheiros desmarcados ou ver a colocação do goleiro antes de chutar.
Os exercícios de leitura dinâmica haviam ampliado o mundo visual do médico. Isso porque, comprovadamente, o homem comum costuma prestar atenção apenas na chamada visão central. Não é para menos. Na vida cotidiana, é necessário constantemente identificar rostos, ler palavras e perceber objetos — tarefas que demandam uma análise detalhada das imagens. “Isso só pode ser feito por células fotossensíveis bastante complexas, chamadas cones, que captam a imagem e a levam ao cérebro com muita nitidez, como se fosse uma fotografia”, explica.
Só que essas células superevoluídas concentram-se apenas na região central da retina, bem no centro de um círculo de apenas 1,5 milímetro. Por isso, conseguimos ver com minúcias apenas as coisas que estão exatamente em frente de nossos olhos, num cone visual de irrisórios 10 graus, algo como o facho de uma lanterna. “É verdade que temos a impressão de ver com nitidez bem mais do que isso”, diz Carvalho. A razão é a rapidez de movimentação dos olhos, que conseguem mudar o foco da “lanterna” de um alvo para outro em frações de segundo. “Vale lembrar que os músculos oculares são os mais velozes de todo o corpo humano.”
Assim, apesar de não percebermos, a maior parte do nosso mundo visual está sempre no campo da visão periférica. Esta, por sua vez, é proporcionada por outro tipo de célula. São os bastonetes, mais simples, situados na periferia daquele pequeno círculo da retina. Como se fossem desenhistas preguiçosos, os bastonetes repassam ao cérebro apenas um esboço da imagem que a pessoa vê. Só dizem o formato aproximado dos objetos ao redor, a e se estão parados ou em movimento. Não percebemos claramente onde termina nossa visão central e onde começa a periférica pois há uma faixa de transição, onde cones e bastonetes se misturam.
Como qualquer humano normal, um atleta tende a seguir a regra de usar muito mais a visão central que a periférica. Só que, no esporte, o sofisticado trabalho das células cones não tem tanta importância. Nenhum jogador precisa ler qualquer coisa durante o jogo ou analisar o rosto de um companheiro ou adversário. Basta perceber a cor do uniforme daqueles que o rodeiam, se estão longe ou perto, parados ou em movimento. É aí que a visão periférica adquire um status que não costuma ter na vida comum. Somada a um bom desenvolvimento da musculatura do pescoço e dos olhos, ela faz os craques do futebol acharem rapidamente um companheiro desmarcado, sem precisar virar o corpo, tarefa que demanda preciosos segundos e revela ao adversário a intenção da jogada.
Ao perceberem isso, Durval Carvalho e o técnico goiano Paulo Gonçalves decidiram unir teoria e prática. “A preparação dos jogadores de futebol tem visado muito mais a parte motora, ao passo que com treinamento da percepção pode-se melhorar a velocidade dos reflexos. Por isso, é importante também criar exercícios para os olhos”, afirma Paulo Gonçalves, que, ao contrário da maioria dos técnicos de futebol, optou pela formação acadêmica: é mestre em ciências do esporte pela Universidade Paris V, na França, onde pretende apresentar o trabalho desenvolvido pela dupla no ano que vem, interrompendo temporariamente sua carreira de técnico.
Foi desenvolvida uma espécie de terapia para aumentar o aproveitamento da visão periférica pelos jogadores. Os primeiros resultados foram sentidos este ano na sensacional campanha do antes inexpressivo Vila Nova, de Goiás, o time escolhido como cobaia. “A intenção era aumentar a velocidade dos reflexos da musculatura do pescoço e dos olhos, além, é claro de forçar o uso da visão periférica”, explica Gonçalves.
Bons treinadores já haviam se preocupado em orientar os novatos para jogar de cabeça erguida. “Normalmente, os garotos novos olham apenas para a bola e não percebem a aproximação do adversário, errando mais passes”, diz Telê Santana, técnico campeão mundial interclubes pelo São Paulo, de quem os juniores são-paulinos volta e meia ouvem broncas como: “Levanta a cabeça!”, ou “Presta atenção no jogo!”
Outros, como Otacílio Pires de Camargo — o Cilinho — são mais criativos. O atual técnico do Rio Branco de Americana (time revelação do futebol paulista no último ano) ficou famoso por “garimpar” novos talentos e também por insistir para que esses novatos praticassem exaustivamente os fundamentos do esporte: chute, drible, passe, cabeceio e condução de bola. Cilinho inventou um treino curioso para laterais e pontas.Com o objetivo de condicioná-los a olhar com atenção para a área antes de cruzar uma bola, ele se coloca perto do gol, segurando uma camisa vermelha e outra amarela. Conforme o jogador se aproxima da linha de fundo para cruzar, Cilinho levanta uma das duas camisas. O jogador tem que gritar a cor da camisa antes de chutar, o que obriga a desviar a atenção da bola e utilizar a visão periférica.
Alguns craques também são bons exemplos de autodidatismo. O atual técnico do Corinthians, Mario Sérgio Pontes de Paiva, ficou famoso na década de 80 como jogador capaz de visualizar jogadas que ninguém conseguia imaginar. Ex-craque do Grêmio Porto-alegrense, São Paulo e Palmeiras, Mário Sérgio não se preocupava com a bola enquanto corria, mantendo os olhos livres para planejar o jogo. Mas nem sempre foi assim. “No início de carreira, eu só olhava para baixo”, confessa. “Perdia tantas bolas e errava tantos passes que um dia me irritei e decidi treinar incansavelmente até aprender a jogar de cabeça erguida. Deu tão certo que passei a surpreender até meus próprios companheiros de time com passes muito rápidos”, revela.
O mesmo ocorreu com Rivellino, que apesar de considerar a visão de jogo um dom de nascença, confessa que aprendeu pouco a pouco a usá-la para enganar os zagueiros adversários. “Na Seleção, cansei de fazer uma jogada em que olhava para o Edu na esquerda e passava para o Zico, na direita”.
Todas essas tentativas, no entanto, foram isoladas e intuitivas. O primeiro trabalho realmente estruturado em moldes científicos começou pelas mãos da dupla goiana, em 1983. Desde então, eles desenvolveram um aparelho capaz de medir a velocidade de captação de imagens e a percepção periférica. Paralelamente, inventaram e testaram toda sorte de exercícios visuais, elegendo, ao final, os mais produtivos, que foram aplicados pela primeira vez em 1992.
Gonçalves e Carvalho recrutaram doze jovens do time de juniores do então inexpressivo Vila Nova, de Goiás. Primeiro, a velocidade de reflexo visual de cada um foi verificada. O jogador era colocado a 1,5 metro de duas telas de vídeo, separadas entre si também por uma distância de 1,5 metro. Dessa forma, era impossível olhar fixamente para os dois vídeos ao mesmo tempo. Tinha então que identificar letras que apareciam de repente nas telas. Enquanto na à direita aparecia, por exemplo, um “a”, a tela da esquerda mostrava um “j”. As letras ficavam durante um momento nas telas e então se apagavam.
Nas primeiras baterias, o tempo de permanência das letras era mais do que suficiente para que os jogadores pudessem facilmente ler uma tela, virar e ler a outra. No decorrer do teste, porém, os flashes ficavam cada vez mais rápidos, exigindo não somente movimentos de pescoço e dos olhos, mas também o emprego da visão periférica. O tempo de permanência das letras foi reduzido até o ponto em que mesmo os jogadores mais rápidos não conseguissem ler ambas as telas. Esses privilegiados atingiram a impressionante marca de 46 centésimos de segundo. Ou seja, necessitavam menos de meio segundo para ler dois estímulos diferentes separados por mais de um metro de distância. “Muitos, no entanto, revelaram reflexos visuais bem mais lentos”, conta Carvalho. O próximo passo seria decisivo para os menos dotados.
Descoberta a velocidade visual de cada jogador, os novatos do Vila Nova foram submetidos a três modalidades de treinamento para a visão, realizados três vezes por semana, durante três meses. Uma delas era eminentemente laboratorial e assemelhava-se aos exercícios de leitura dinâmica. O jogador era condicionado a ler, com apenas um golpe de vista, palavras impressas com vários centímetros de distância umas das outras.
O segundo exercício já estava ligado à bola. A velha e boa “embaixada” — aquela brincadeira de ficar chutando a bola para cima sem deixá-la cair no chão — tinha que ser executada ao mesmo tempo em que o jogador era obrigado a olhar para o gol. “Nas primeiras tentativas quase ninguém conseguia dar mais de trinta olhadelas em direção ao gol em cada série de 80 embaixadas”, recorda-se Carvalho. “Ao final de um mês, no entanto, alguns jogadores já conseguiam olhar para o gol 70 vezes a cada 80 toques na bola.” Em outras palavras, eles haviam se libertado da bola. Se antes tinham que olhar fixamente para ela, agora bastava a visão periférica, tal qual fazem os jogadores de basquete enquanto quicam a bola.
A terceira e última etapa foi a mais difícil para os juniores do Vila Nova. Era um treino de cabeçadas para o gol, após cobranças de escanteio. Só que, em vez de simplesmente esperar o cruzamento, os jogadores precisavam cumprir uma tarefa durante o trajeto da bola. Assim que era chutada, tinham de olhar para o lado oposto e ler palavras escritas em uma tabuleta. À primeira vista, parece realmente impossível virar-se para trás, ler uma placa, voltar e cabecear a bola para o gol — tudo em mais ou menos um segundo. “Como no exercício das embaixadas, ao final de dois meses a maioria já tinha reflexos suficientemente rápidos na musculatura do pescoço e dos olhos para cumprir a tarefa.”
Seis dos doze juniores treinados por Gonçalves e Carvalho tornaram-se titulares do time principal, após a experiência. O Vila Nova, que fazia nove anos não ganhava nada, saiu de uma fase ruim, à beira do rebaixamento para a segunda divisão, para chegar em 3.º lugar em 1992 e se sagrar campeão estadual goiano em 1993. “É claro que muitos fatores levaram o time a ganhar o campeonato. Mas, com certeza, um dos mais importantes foi o treinamento da visão”, diz Paulo Gonçalves.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Biofília - Cura que vem da natureza

fonte: oglobo

RIO - Dar flores a quem está preso a uma cama de hospital talvez seja mais do que um gesto simpático. Você pode estar ajudando o adoentado a sair dali mais depressa e a evitar o uso de analgésicos. A natureza faz bem à saúde. Assim apontam diversas pesquisas científicas ligadas ao conceito de biofilia: uma teoria que defende que, ao longo da evolução humana, fomos programados para amar tudo o que é vivo, em vez de objetos, e, por isso, a natureza simplesmente nos faz sentir melhor. Afinal, o ambiente urbano foi adotado pelos seres humanos apenas nos últimos séculos de sua existência.

— Parques, jardins, flores, fitocidas (substâncias produzidas por plantas contra micro-organismos) têm efeitos benéficos em humanos — conta Yoshifumi Miyazaki, codiretor do Centro para Meio Ambiente e Saúde da Universidade de Chiba, no Japão, uma das instituições mais ligadas ao tema no mundo. — O corpo humano foi feito para se adaptar à natureza.
Seu trabalho tem como base a premissa de que passamos 99,99% de nossos cinco milhões de anos de evolução como primatas em meio à natureza. Seríamos essencialmente conectados a ela. Pode parecer esotérico, mas cientistas de diversos países — como Holanda, Reino Unido e Japão — perceberam que, ao entrar em contato com o verde, o corpo logo responde, de forma sutil, com pressão mais baixa e maiores níveis de glóbulos brancos (responsáveis pelas defesas do organismo), entre outros.
O conceito “biofilia” significa, literalmente, “amor pela vida” e foi popularizado quando o biólogo americano Edward Wilson publicou um livro com este título, em 1984. Dez anos depois, Wilson editou, com Stephen Kellert, outro livro, intitulado “A hipótese da biofilia”, que discute a possibilidade de haver base genética para nosso apreço pela natureza. Não há pesquisas amplamente aceitas que comprovem esta teoria, mas não faltam indícios da influência saudável do verde.
Um dos primeiros a demostrar que a natureza faz bem foi Roger Ulrich, em 1984, ao comparar pacientes em quartos com janelas voltadas para árvores com aqueles cujos quartos ofereciam vista para uma parede de tijolos, em um hospital na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Seus resultados demonstraram que pacientes com acesso ao verde saíram mais cedo do hospital, tomaram analgésicos mais fracos ou em menos quantidade, tinham menos comentários críticos sobre a enfermagem e menor número de pequenas complicações pós-cirúrgicas. Depois, outros estudos testaram objetos coloridos, porém inanimados, no lugar de plantas, e verificaram que as plantas ofereciam benefícios ligeiramente maiores.
A partir da pesquisa de Ulrich, citada em numerosos trabalhos, muitos passaram a defender a construção de mais áreas verdes em hospitais e até mesmo o contato com a natureza como uma forma de medicina preventiva. Com o tempo, surgiram análises também em escritórios, escolas e apartamentos, tanto sobre o uso da natureza no interior quanto ao ar livre. Em um estudo de 2000, a pesquisadora Tove Fjeld, da Universidade de Agricultura da Noruega, viu que reclamações sobre dores de garganta, por exemplo, diminuíram 23% depois que um escritório foi decorado com plantas. Já o estudo da pesquisadora Virginia Lohr, da Universidade do Estado de Washington, percebeu que a presença de plantas torna a dor mais suportável.
Para os citadinos com dificuldades de encontrar espaços verdes, portanto, haveria alternativa: basta povoar varandas, mesas e paredes com belas flores e arbustos para sentir a diferença. Vale dizer que boa parte dos cariocas não tem muita desculpa. No ano passado, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente mostrou: o Rio ostenta uma média de 55,83 m² de área remanescente da Mata Atlântica por habitante — número bem superior aos 12 m² mínimos recomendados pela Organização Mundial da Saúde.
Escolher caminhar pelo Campo de Santana em vez de enfrentar a Avenida Presidente Vargas pode render um dia menos estressante. Pesquisas de Miyazaki, da Universidade de Chiba, trazem números interessantes sobre a influência de caminhar em ambientes naturais. Depois do segundo dia de andanças numa floresta local, um determinado tipo de glóbulos brancos, as células de defesa do organismo, teve um aumento de 56% nos indivíduos acompanhados. Uma quantidade 23% maior das células em relação ao estado original foi mantida durante um mês após a caminhada e o retorno à vida urbana. Para os pesquisadores, este foi um sinal claro de como a natureza pode contribuir para a medicina preventiva. Por causa disso, desde 2005, no Japão, há diversos locais onde se pode praticar a “Terapia de floresta” (chamados shinrin-yoku), uma caminhada por áreas verdes com potencial de curar o estresse. O governo japonês já investiu, desde 2004, US$ 4 milhões em pesquisas sobre o tema, visando também estabelecer mais de 100 lugares onde se pode participar da terapia.

Para eliminar dúvidas, os pesquisadores compararam os efeitos de caminhadas em ambientes urbanos e naturais, usando os mesmos indivíduos. Além dos glóbulos brancos, foram analisados a quantidade de cortisol (um indicador de estresse), pressão sanguínea e batimentos cardíacos. Notaram uma diminuição de 16% no cortisol, de 4% para batimentos cardíacos, de 2% para a pressão arterial, entre outros efeitos.
Há também estudos que demonstram os benefícios de se viver perto da natureza. Em uma pesquisa que acompanhou 350 mil pessoas, a pesquisadora Jolanda Maas, do Centro Médico Universitário de Amsterdã, concluiu que, quando 90% da área ao redor da residência é de verde, 10,2% dos moradores não se sentem saudáveis. Já quando 10% da área ao redor é de natureza, 15,5% relatam problemas de saúde. Maas encontrou maior prevalência de 15 entre 24 doenças selecionadas em pessoas que vivem mais longe de áreas verdes. Inclusive mentais: pessoas que vivem próximas da natureza teriam 21% menos chances de desenvolver depressão.
— Os governos poderiam adotar políticas de forma a definir que porcentagem de área verde cada bairro deve ter — opina a holandesa. — As pessoas podem aumentar a área verde em seus próprios jardins. Apenas olhar para a natureza nos ajuda a nos recuperarmos do estresse. Também poderiam tentar visitar estas áreas com mais frequência.


Fuga temporária
Os pesquisadores admitem que os efeitos são sutis, e que, dependendo da personalidade de cada um, podemos ser mais ou menos afetados por esta mágica natural. A dúvida se o nosso gosto pela natureza é cultural ou genético permanece. O biólogo Bjørn Grinde, da divisão de saúde mental do Instituto Norueguês de Saúde Pública, que faz vários trabalhos de recapitulação do tema, listando diversas pesquisas, acredita que os dois coexistem.
As explicações para o efeito da natureza sobre nossa saúde variam desde fatores evolucionários à melhor qualidade do ar, ou ainda um gosto estético por tudo que é verde ou vivo. Grinde listou quatro possíveis causas apontadas por Ulrich em seus trabalhos: estar na natureza normalmente é relacionado a atividades físicas; atividades na natureza muitas vezes estimulam a socialização; e a natureza oferece uma oportunidade de fuga temporárias da rotina e suas exigências. A última é um questionamento: será que há mais vantagens do contato com a natureza que não as questões sociais e físicas a elas associadas?
A verdade é que ninguém sabe ao certo como a mágica acontece. Em uma longa pesquisa, que durou 17 anos e acompanhou 10 mil pessoas, Mathew White, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, mostrou que quem vive próximo a áreas verdes tem mais qualidade de vida, menos problemas psicológicos. Mas o pesquisador ainda tem dúvidas em relação aos motivos desses efeitos positivos. É possível que a questão cultural pese mais do que qualquer fator genético.


— Nossas pesquisas sugerem cada vez mais que não é a natureza que é boa, mas sim o ambiente urbano que é ruim — teoriza White. — Sair com amigos ou ver um bom filme também faz bem à saúde.
Basta ver para crer e sentir
Para o bem ou para o mal, não é difícil confundir nossos sentidos. A natureza falsa, ou simulada, também surte efeitos na melhora de nossa saúde. Diversas pesquisas mostram que, entre olhar uma planta de plástico bem feita e um verdadeiro espécime da natureza, não há tanta diferença assim. Ao mesmo tempo, caminhar virtualmente por florestas digitais como num videogame pode trazer grandes benefícios a quem está confinado em um ambiente estéril.
— Se você acreditar que está vendo uma planta de verdade, mesmo que seja de plástico ou uma figura, eu espero o mesmo resultado — opina o biólogo Bjørn Grinde, da divisão de saúde mental do Instituto Norueguês de Saúde Pública, que fez estudos sobre os efeitos de apenas vermos a natureza.
Primeiro cientista a fazer pesquisas relacionadas à biofilia, Roger Ulrich também investigou os benefícios da natureza virtual. Ele percebeu, em 2003, que os níveis de estresse de pessoas que esperavam em uma sala para doar sangue eram mais baixos quando a televisão mostrava imagens de ambientes naturais do que no momento em que figuras de cidades apareciam.
As pesquisas do psicólogo e engenheiro Robert Stone, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, tentam medir os efeitos do contato com ambientes naturais virtuais em terapias de reabilitação, que contam com tecnologias similares às de videogames. Matthew White, da Universidade de Exeter, no mesmo país, participou de alguns desses estudos e justifica sua importância:
— Há muitas situações em que os pacientes não podem sair andando, e percebemos que sua exposição à natureza os acalma — explica White, ressaltando que, em muitos recintos hospitalares é impossível pôr plantas de verdade ou vistas para jardins por causa das medidas de segurança.
Segundo as pesquisas de Stone, a tecnologia é especialmente interessante para pessoas amputadas, que não podem sair da cama enquanto se recuperam, e para pessoas que acabaram de voltar de situações de conflito, portanto vulneráveis a problemas de saúde mental, como transtorno de estresse pós-traumático. Os efeitos até agora têm sido positivos, mas ainda é necessário aprofundar os estudos, segundo o próprio trabalho relata.


No Japão, o uso de fitocidas (substâncias produzidas por plantas contra micro-organismos) — há mais de 100 tipos deles — também tem tido resultados positivos. Estudos da Universidade de Chiba observaram diminuição da pressão sanguínea em cerca de 4% após a exposição ao odor por cerca de um minuto e meio. A substância é tida como um dos motivos pelos quais a terapia de floresta japonesa funciona tão bem.
Por email, Stone faz questão de ressaltar que, por mais que haja indícios da eficiência da exposição à natureza virtual, a realidade é sempre preferível.
— Não estamos tentando substituir a natureza, a realidade virtual tem muito para evoluir antes que isso aconteça, se é que vai acontecer um dia. Nós estamos tentando trazer a representação da natureza para aqueles que não têm nada no mundo real que chegue sequer perto disso. Se descobrirmos que a nossa natureza virtual alcança efeitos de restauração similares ao que foi descoberto no mundo real, aí ficaremos muito felizes!

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