A profundidade espiritual de Yu Yu Hakusho, criado por Yoshihiro Togashi, vai muito além de um simples anime de luta (shonen). A obra explora temas existenciais, a conexão entre vida e morte, a dualidade da natureza humana e a evolução da alma através de conceitos baseados em religiões orientais como o Budismo, Shintoísmo e Taoísmo.
Aqui estão os pontos principais que destacam essa profundidade espiritual:
- A Morte como Reinício e Responsabilidade: A série começa com a morte de Yusuke Urameshi, não como um fim, mas como uma transição. Yusuke aprende que a vida é preciosa e que suas ações têm consequências duradouras no mundo espiritual e físico.
- Energia Espiritual como Emoção (Reiki): O sistema de poder é um reflexo espiritual. A energia (Reiki) é manipulada pela consciência e emoções do usuário. Fica claro que, quanto mais Yusuke amadurece emocionalmente e compreende sua responsabilidade em proteger os outros, mais poderosa sua energia se torna.
- O Mundo Espiritual Intermediário: O "Reikai" (Mundo Espiritual) em Yu Yu Hakusho funciona como uma estação de passagem ou reavaliação da alma, não apenas como um paraíso ou inferno definitivo, refletindo crenças de transição pós-morte.
- O Arco do Sensui e o Dualismo: O arco do Capítulo Negro (Sensui) aborda a fragilidade da mente humana e espiritual. Shinobu Sensui torna-se um vilão ao perder a fé na humanidade após ver sua crueldade, um dilema profundo sobre moralidade e a percepção do bem e do mal.
- Conexão com a Natureza e Equilíbrio (Taoísmo): A série frequentemente explora a necessidade de equilíbrio entre o Mundo Humano, Mundo Espiritual e Mundo dos Demônios (Makai). Togashi mostra que seres considerados "demônios" não são intrinsecamente maus, mas parte de uma ordem natural, ecoando conceitos taoístas de harmonia.
- A Jornada de Repentance (Arrependimento): Personagens como Toguro e, posteriormente, Sensui, lidam com o peso de suas escolhas. O arco de Toguro é uma lição trágica sobre orgulho, mostrando que a verdadeira força espiritual exige lidar com o trauma e as consequências de suas ações.
COMEÇANDO PELO FIM
Não, não é o que parece, o subtítulo não indica uma nova explicação para a leitura de sentido reverso que o oriente tem em seus livros e, mais notóriamente no ocidente, de seus mangás.
Mas fazendo uma metáfora inteligente do que é o mangá para o ocidental, e provavelmente sem nem se dar conta disso, Yoshihiro Togashi se utilizou de algo inusual para um mangá shonen até então: começou a contar a história pela morte do personagem principal.
Sim. Yusuke Urameshi, um japonês brigão que só arranja confusão na escola onde estuda, tem péssimas notas e é indiferente para tudo e para todos morre logo no primeiro capítulo da história.

Estranho? Sim, mas ainda mais por essa ser a descrição de um herói muito diferente do ser confiante, corajoso e bondoso do formato do herói nos anos 90. Porém, contrariando conceitos e premissas, Yusuke morre exatamente contrariando o conceito preconceituoso que personagens e leitores formam do personagem nos primeiros momentos de contato com o receptor da história.
Para salvar uma menina que desapercebida atravessa a rua movimentada de Tóquio, Yusuke se joga na frente de um carro e morre atropelado.
É essa reversão de expectativas que logo no início marca o início de Yu Yu Hakusho e a acompanha ao longo de toda a sua história, fazendo da trama uma das mais cativantes e impressionantes da história dos animes.
O DETETIVE ESPIRITUAL
Yusuke morreu por engano. Sim, logo que perde a vida, o espírito do protagonista da história descobre que não estava em seu destino salvar a menina, que pouco se feriria no acidente que acabara de impedir. Além da revelação macabra, o universo de Yu Yu Hakusho começa a se fundir com o rico folclore japonês, tornando a história interessante para o oriental e fascinante para o ocidental.
Para buscar a alma de Yusuke, a jovem Botan vai de encontro com o rapaz e para reparar o engano sofrido, Koenma, filho do rei Enma Dayou, rei do mundo espiritual, lhe oferece a chance de voltar a vida se este aceitar o emprego de detetive espiritual na Terra após sua ressurreição.

Nesse ponto começa a primeira saga de Yu Yu Hakusho. Cheia de arcos para apresentar os protagonistas, firmar conceitos e desbancar os mais crentes de uma história linear, vilões e heróis começam a aparecer e mostrar que tem mais em comum do que a aparência fugaz que cada um apresenta pode aparentar.
Rival de Yusuke e sempre cheio de si, Kazuma Kuwabara rivaliza o posto de bad boy número 1 da escola e da cidade. Dono de uma sensibilidade espiritual incrível, o machão acaba se juntando a Yusuke no trabalho de detetive espiritual após se tornar peça chave para ressurreição do personagem junto de Keiko, a namorada de Yusuke.
Assim como Yusuke e Kuwabara, os outros dois protagonistas começam exatamente mostrando seu lado mais cruel para depois se revelarem excelentes aliados. Durante o arco para recuperar objetos espirituais de grande poder, são apresentados o youkai Kurama e o misterioso Hiei.
Dotados de grande poder, Yusuke precisa enfrentar a ganância de Hiei e a decisão de Kurama antes de tê-los como aliados, algo que acontece apenas durante o ápice da saga, quando os dois se juntam a Yusuke e Kuwabara para deter a maldição causada pela flauta utilizada por Suzaku, um dos quatro monstros do inferno para transformar humanos em demônios.

Focado em mostrar habilidades e apresentar os personagens que passarão a integrar complexas sagas ao longo de todo o desenvolvimento da história, a Saga do Detetive Espiritual, além de ter uma trama bem leve e despojada funciona perfeitamente para atrair e fidelizar fãs.
SORRISO CONTAGIANTE
Nascido numa época em que o mangá estava efervescêndo graças aos fenômenos dos anos 80 da Shonen Jump, Yu Yu Hakusho se destacou como uma obra original misturando conceitos da mitologia budista e xintoísta com personagens vistos no dia-a-dia do japonês.
Desenvolvendo seu estilo inesperado que depois estaria muito mais amadurecido em Hunter x Hunter (clique aqui para ler as resenhas do Exame Hunter, da Família Zaoldyeck e da Torre Celestial), Yoshihiro Togashi foi um dos grandes destaques dos anos 90 por trazer grande originalidade na criação de contextos e personagens.
Começando de uma maneira branda, quase didática, e com arcos bem definidos, Yu Yu Hakusho já começou mostrando o que mais teve de melhor durante todo desenvolvimento da saga do Detetive Espiritual: contar uma história de ficção através de personagens que quebram esteriótipos e são politicamente incorretos, mas que cativam a cada sorriso após uma vitória inovadora na história dos mangás.
